segunda-feira, 26 de setembro de 2016

LUIS FERNANDO VERISSIMO

O escritor, roteirista, saxofonista, jornalista e tradutor Luís Fernando Veríssimo faz hoje 80 anos. Eu comecei a ler seus livros por um livreto de crônicas chamado "O rei do Rock", que não fala uma linha de Elvis Presley mas tem suas crônicas mais criativas e cativantes. E é um dos únicos famosos gaúchos que moram por aqui. Gisele Bündchen mora em Nova York, Tite em São Paulo, Xuxa no Rio de Janeiro, Ronaldinho não sei, Mano Menezes em BH mas tem eu aqui em Lajeado (kkkk...).

Olha aí, quero dizer leia aí a crônica do publicitário que recebeu uma difícil missão no inferno:

O desafio
     Um publicitário morreu e, como era da área de atendimento e mau para o pessoal da criação, foi para o Inferno. O Diabo, que todos os dias recebe um print-out com o nome e a profissão de todos os admitidos na data anterior, mandou que o publicitário fosse tirado da grelha e levado ao seu escritório. Queria fazer-lhe uma proposta. Se ele aceitasse, sua carga de castigos diminuiria e ele teria regalias. Ar condicionado, etc.
     __ Qual era a proposta?
     __ Temos que melhorar a imagem do Inferno -- disse o Diabo. __ Falam as piores coisas do Inferno. Queremos mudar isso. 
     __ Mas o que é que se pode dizer de bom disto aqui? Nada.
     __ Por isso é que precisamos de publicidade!
     O publicitário topou. Era um desafio. E as regalias eram atraentes. Quis saber algumas das coisas que diziam do Inferno e que mais irritavam o Diabo. 
     __ Bem. Dizem que aqui todos os cozinheiros são ingleses, todos os garçons são italianos, todos os motoristas de táxi são franceses e todos os humoristas são alemães.
     __ E é verdade?
     __ É.
     __ Hmmm __ disse o publicitário. __ Uma das técnicas que podemos usar é a de transformar desvantagem em vantagem. Pegar a coisa pelo outro lado.
     Sua cabeça já estava funcionando. Continuou:
     __ Os cozinheiros ingleses, por exemplo. Podemos dizer que a comida é tão ruim que este é o lugar ideal para emagrecer. Além de tudo, já é uma sauna.
     __ Bom, bom.
     __ Garçons italianos. Servem a mesa pessimamente. Mas cantam, conversam, brigam. Isto é, ajudam a distrair a atenção da comida inglesa.
     __ Ótimo.
     __ Motoristas franceses. São mal humorados e grosseiros. Isso desestimula o uso do táxi e promove as caminhadas. É econômico e saudável. Também provoca indignação generalizada, une a população e combate a apatia.
     __ Muito bom!
     __ Uma situação que não seria amenizada pelos humoristas. Os humoristas, como se sabe, não têm qualquer função social. Eles só servem para desmobilizar as pessoas, criar um clima de lassidão e deboche, quando não de perigosa alienação. Isto não acontece com os humoristas alemães, cuja falta de graça só aumenta a revolta geral, mantendo a população ativa e séria. O alívio cômico é dado pelos garçons italianos.
     __ Perfeito! __ exclamou o Diabo. __ Já vi que acertei. Quando podemos começar a campanha?
     __ Espere um pouquinho __ disse o publicitário. __ Temos que combinar algumas coisas, antes. Por exemplo: a verba.
     __ Isto já não é comigo __ disse o Diabo. __ É com o pessoal da área econômica. Você pode tratar com eles. E aproveitar para acertar também o seu contrato.
     Com isto o Diabo apertou um botão do intercomunicador vermelho que havia sobre sua mesa e disse:
     __ Dona Henriqueta, diga para o Silva vir até a minha sala.
     __ Silva? -- estranhou o publicitário.
     __ Nosso gerente financeiro. Toda a nossa economia é dirigida por brasileiros.
     Aí o publicitário suspirou, levantou e disse:
     __ Me devolve pra grelha...

Algumas frases do escritor:

- "Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo".

A verdade é que a gente não faz filhos. Só faz o layout. Eles mesmos fazem a arte-final."

É "de esquerda" ser a favor do aborto e contra a pena de morte, enquanto direitistas defendem o direito do feto à vida, porque é sagrada, e o direito do Estado de matá-lo se ele der errado."

- "Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data".

- "A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer "escrever claro" não é certo mas é claro, certo?"

- "Só acredito naquilo que posso tocar. Não acredito, por exemplo, em Luiza Brunet."

- "Quando o casamento parecia a caminho de se tornar obsoleto, substituído pela coabitação sem nenhum significado maior, chegam os gays para acabar com essa pouca-vergonha."

- "Escrevi uma vez que era um cético que só acreditava no que pudesse tocar: não acreditava na Luiza Brunet, por exemplo. Cruzei com a Luiza Brunet num dos camarotes deste carnaval. Ela me cobrou a frase, e disse que eu podia tocá-la para me convencer da sua existência. Toquei-a. Não me convenci. Não pode existir mulher tão bonita e tão simpática ao mesmo tempo. Vou precisar de mais provas."

- "Pensei vagamente em estudar arquitetura, como todo o mundo. Acabaria como todos que eu conheço que estudaram arquitetura, fazendo outra coisa. Poupei-me daquela outra coisa, mesmo que não tenha me formado em nada e acabado fazendo esta estranha outra coisa, que é dar palpites sobre todas as coisas."

- "Nunca usei bombacha, não gosto de chimarrão e nem de me lembrar da última vez que subi num cavalo. Aliás, o cavalo também não gosta."

Ao ser perguntado por que costuma o número dezessete tantas vezes em suas crônicas]
- "Dezessete é um número cabalístico e, sendo cabalístico, eu não posso revelar. Brincadeira, não tem nenhum significado. Dezessete é uma palavra bonita."

- "O oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença..."


Luis Fernando Verissimo é um dos mais respeitados cronistas brasileiros, autor de best-sellers inesquecíveis, como Comédias da Vida Privada e Clube dos Anjos, da coleção Plenos Pecados. Filho de Érico Veríssimo, um dos maiores nomes da literatura nacional, Luis Fernando Verissimo nasceu em Porto Alegre, em 26 de setembro de 1936. Aos 16 anos, foi morar nos EUA, onde aprendeu a tocar saxofone, hábito que cultiva até hoje – tem um grupo, o Jazz 6. É jornalista, mas “do tempo em que não precisava de diploma para exercer a profissão”. Antes de se dedicar exclusivamente à literatura, trabalhou como revisor no jornal gaúcho Zero Hora, em fins de 1966, e atuou como tradutor, no Rio de Janeiro. Casado há mais de 30 anos com Lúcia Verissimo, sua primeira “namorada séria”, tem três filhos: Fernanda, Mariana e Pedro.

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